Mostrar mensagens com a etiqueta Artigos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Artigos. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Quando a ASAE se vir ao espelho


No expresso da semana passada, descobri o seguinte artigo:

"Meu caro presidente da ASAE:

Escrevo-te para te revelar o futuro. E o teu futuro, caríssimo António Nunes (presidente da Autoridade para a Segurança Alimentar e Económica), é brutal! Não digo negro, porque de certa forma é luminoso, mas é um mau futuro.
Quando eu era novo. havia na minha terra - pequena aldeia escondida pelos cerros beirões -, um barbeiro. Dizer um barbeiro, era dizer um espelho e um banco, uma tesoura e um homem, razão pela qual ainda por lá se diz «não tarda uma loja de um barbeiro», para se dizer que é coisa rápida.
Esse barbeiro dizia mal de toda a gente. Que este era um palerma, que o outro era tolo, que o seguinte era ruim e que o freguês que se seguia era um palonço do piorio.
Ao fim da tarde, quando não quedava senão ele na loja, o barbeiro mirava-se ao espelho e apontando para a sua imagem reflexa, dizia: «E tu és o pior de todos! Tu também me saíste um grande filho da mãe, sempre disposto a dizer mal deste e daquele, sem piedade nem compaixão.»
Quero eu com esta singela história do passado dizer que foi-se o barbeiro e veio a ASAE.
A Autoridade, com todo o mérito que tem, chega a restaurante, hotel, cantina, feira, mercado ou o que quer que seja, e apreende, encerra, questiona.Vai tudo fardado, com máscaras na cara, como se fossem prender seis terroristas da ETA armados pelo Ahmadinejad e com ligações estabelecidas ao próprio diabo. Atrás vai a imprescidível câmara de televisão, ou o escriba armado de bloco de notas e fulgor higiénico-patriótico.
É perante este cenário que cai o croquete e o pastel de bacalhau indevidamente congelados! É nesta crueldade que morre a bola de Berlim e a bolachinha americana! É neste teatro que a garoupa, o pargo, o goraz ou o bife de alcatra ficam com os dias contados! Com eles caem feiras inteiras, mercados municipais ou supermercados! Nada fica como dantes. Qual inverso do huno, onde a ASAE põe os pés nunca mais há erva. As couves, as verduras deixam de ser frescas. Seja o pastel de Belém, seja a francesinha do Porto, ninguém está a salvo da Autoridade! Até ao final de Outubro, já tinham apreendido mais de 45 milhões de euros de bens.
Bem hajam!
Mas deixa-me voltar à história do barbeiro. Porque, meu caro António Nunes, gostaria de ver a ASAE entrar de rompante na tua cozinha... Ou, melhor ainda, ver a ASAE investigar a própria ASAE e os seus centros regionais. Haverá baratas na casa de banho? Haverá restos de comida em locais pouco apropriados? Haverá cassetes piratas, DVDs falsos, CDs copiados? O peixe está devidamente rotulado? A banana tem a curvatura regulamentar? É bom ver.
Um dia que estejas sozinho, caro António Nunes, olha para o espelho. Vais ver que ainda encontras algum defeito na tua casa.
Entretanto, aceita um abraço (devidamente calibrado, rotulado e higienizado) do teu


Comendador Marques de Correia"