Encontrei este texto n'A História misteriosa de Portugal. Foi traduzido de um texto original da época:
"D. Afonso Henriques nomeara bispo de Coimbra um padre de raça negra, de nome Suleima, então, o Papa enviou um cardeal com o objectivo de excomungar o novo reino mas, mal tomou conhecimento da notícia, o rei avisou logo que não só recusaria beijar a mão do cardeal como lha cortaria pelo pulso.
Ao chegar e sendo avisado das intenções do soberano, o cardeal sentiu um receio enorme, tanto mais que ninguém o fora receber ao caminho, ao contrário do que sucedera nos outros reinos por onde passara.
Mal entrou no palácio ouviu logo, de D. Afonso, a seguinte pergunta:
-Cardeal, o que vieste aqui fazer, se de Roma nunca me veio senão mal? E que ajuda me trazeis de Roma para as batalhas que travo com os mouros? Se trazeis alguma coisa, espero que me a dês já, senão ide à vossa vida.
Vendo-se entre a espada e a parede, o prelado tentou mudar o rumo da conversa, referindo dever-se a sua visita à necessidade de incutir-lhe a fé em Jesus Cristo.
O que lhe fostes dizer! Irado, o rei lembrou-lhe existirem tão bons livros de doutrina cristã em Portugal como em Roma, ministrou-lhe em seguida uma lição de cristianismo e, sem mais conversa, mandou-lhe dar pousada.
Durante a noite, o enviado de Roma chamou os clérigos da cidade e, perante todos eles, procedeu à cerimónia mágica de excomunhão de Portugal, nem sequer esperando a madrugada para partir, de forma que se encontrava já a duas léguas de Coimbra quando o dia rompeu.
Ao levantar-se, D. Afonso Henriques soube logo do que se passara na calada da noite, coisa que o deixou furibundo. Mandou aparelhar o cavalo mais veloz e, em furioso galope, com os validos atrás pedindo-lhe que não matasse o cardeal, cortou caminho pela floresta indo apanhá-lo em Poiares, onde o segurou pelo pescoço e já lhe ia cortar a cabeça com a espada.
Colocaram-se os validos de permeio gritando:
-Não o mateis, senhor, senão é que Roma vos toma por herege! Aviso salvador da vida do apavorado clérigo, confessando-se já disposto a fazer tudo quanto lhe mandassem.
-Pois então, desexcomungai o que excomungastes! - ordenou-lhe o rei.
-Senhor, eu desexcomungo Portugal em nome do do Pai, do Filho e do Espírito Santo. - gemeu o clérigo.
- E agora, tirai dos alforges a prata e o ouro que levais, além de deixar cá as bestas, pois preciso delas para a guerra! - berrou-lhe o soberano.
Além disso, obrigou-o a jurar que, quando chegasse a Roma, lhe enviaria uma carta, referindo nunca mais Portugal ser excomungado durante o seu reinado e, para o cardeal não fugir à jura, ficou-lhe com um sobrinho como refém, finalizando a conversa com o aviso de que lhe mataria o parente se a carta não chegasse a Coimbra dentro de quatro meses.
E o cardeal outorgou tudo quanto o rei quis, tendo a carta chegado antes dos quatro meses cumpridos. Desde ali em diante fez o rei, em toda a sua terra, bispos e arcebispos, beneficiando aqueles que desejava..."
Digam lá se não dava jeito ter uns quantos destes hoje em dia em Portugal. E depois, o Salazar é que ganha os grandes portugueses!
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sexta-feira, 31 de outubro de 2008
terça-feira, 29 de janeiro de 2008
Endovélico

Como técnico de arqueologia que sou, não posso deixar de referir um dos principais e mais bonitos sítios arqueológicos
do Alentejo. Claro que, uma visita ao "Google" e umas polidelas aqui e ali, ajudaram a fazer este post. (A foto é minha!)
Esta foto representa um dos lugares mais bonitos existentes nos arredores do Redondo. Trata-se da "Rocha da Mina" que, segundo rezam as crónicas, era a localização primitiva do santuário do Deus Endovélico que mais tarde foi erguido no topo do cerro de S. Miguel da Mota, a 5 km a Norte de Terena, muitos séculos atrás e antes da nossa era, o santuário resume-se hoje a vestígios das suas ruínas. No entanto, ainda hoje subsistem muitas dúvidas acerca desta divindade, para os estudiosos.
Para uns, poderá ter sido uma divindade do panteão indígena da Lusitânia que foi, posteriormente, romanizado. Para outros, tratar-se-ia de um Deus Celta.
O que faz sentido, uma vez que os Lusitanos constituíam uma etnia mas, falavam a mesma língua e possuíam a mesma cultura que os Celtas logo, pode-se dizer que os Lusitanos eram uma tribo Celta.
Apesar de pré-céltico, o culto de Endovélico acentuou-se na época céltica e atingiu o seu esplendor já no período romano.
A Época Romana
É neste período que este culto atinge o seu apogeu, em parte devido à política romana da não hostilidade para com os cultos indígenas. Os Romanos aceitavam estas crenças no seu panteão por saberem o que elas significavam para as populações locais. Aceitando a fé local, mais fácil se tornaria a sua romanização. Esta atitude por parte dos Romanos, foi o que permitiu que estes testemunhos chegassem até aos nossos dias.
O Deus Ctónico
Endovélico é uma divindade infernal e benfazeja que velaria pela saúde das pessoas, concedia profecias e oráculos e, finalmente, asseguraria aos fiéis eterna e feliz depois da morte. Este Deus teria ainda os seguintes significados:
-Deus da medicina: (Foi encontrada uma representação de um paralítico);
-Divindade psicopômpica: (Condutora de almas para o outro mundo, encontraram-se representações de palmas e coroas de louros, símbolos de imortalidade);
-Divindade Tópica: (Protectora da região em que era adorado);
Culto e Devoção
O culto de Endovélico é revelado pela existência de um santuário. Provavelmente, primeiro, toda a zona da "Rocha da Mina" seria sagrada mas, à medida que a sua crença foi aumentando, surge a necessidade de criar um local próprio para a divindade, daí as ruínas encontradas no topo do outeiro de S. Miguel da Mota. No entanto, há ainda a teoria de que, numa fase já decadente do culto, este santuário tenho sido abandonado para se fixar no santuário designado por S. Miguel da Mota no qual, se encontra uma igreja feita a partir de uma anta.
Foi, no entanto, nas encostas do outeiro que foi encontrado o maior número de lápides e vários outros objectos dedicados a este culto.
Actualmente
Hoje em dia, podem-se visitar tanto a "Rocha da Mina" como o santuário de Endovélico através da "Rota do Endovélico" que inclui outros povoados como o Castelo Velho (do outro lado da ribeira de Lucefécit em frente às ruínas do Endovélico) e o Castelinho. No entanto, as acessibilidades não são as melhores (eu que o diga, a minha carrinha já "penou" tanto no meio de cerros, ribeiras intransponíveis e corta-fogos!)
Mas, sinceramente, vale a pena visitar. Já visitei quase todos e é lindo, principalmente daqui a umas semanas quando as estevas estiverem em flor... fantástico! Aconselho vivamente!
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