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quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
Capítulo 2 - Primeira parte
- Estás a ver aquela? Parece um urso de peluche com um laço...
- Bem, tu tens cá uma imaginação!
- Tenta Miguel, tu também consegues. É só olhares para as nuvens e interpretares as formas delas.
- Mas para ti é fácil, Ana. Tens uma imaginação muito mais fértil que a minha...
E, na verdade, sempre assim fora, Ana sempre fora muito activa, imaginativa... parecia que andava sempre noutro mundo e essa maneira de ser um pouco misteriosa e alegre sempre fascinara Miguel.
Conheciam-se desde a escola primária e tinham sido sempre amigos inseparáveis até que, com a idade e o tempo, essa amizade fora evoluindo para um grande amor quando ambos entraram para a universidade. Aliás, encontravam-se naquele local à beira mar, precisamente, a comemorar os seus doutoramentos e a fazer planos para o futuro.
- Aquela ali parece uma foto de família. Eu, tu e os nossos filhos...
- Tu és terrível, Miguel! Eu sei que não estás a ver nada disso! Ah, ah, ah... é só para puxares esse assunto... mas foi uma boa tentativa!
- Conheces-me bem demais.... ah, ah, ah... Mas já que falamos nisso... - Miguel levantou-se e ajoelhando-se frente a Ana, levou a mão ao bolso de onde tirou uma pequena caixa de veludo.
- Ana, meu amor... queres casar comigo?
- ... Ah... nem sei o que te diga... a não ser... SIM!!!! Aceito casar contigo!
Então, Miguel introduziu o o anel no dedo de Ana e abraçaram-se e beijaram-se demoradamente.
- Venho já, amor. - Ana levantou-se e foi até à mala do carro mas, enquanto retirava da geleira uma garrafa de champanhe, apercebeu-se que algo estava terrivelmente errado. Na verdade, o carro começou a deslizar para a frente na direcção de Miguel e do mar... em pânico, apenas conseguiu gritar:
- Miguel!
Mas era tarde demais...
A última coisa que viu, foi a mesma imagem que a assaltaria noite após noite durante muito, muito tempo: o olhar aterrado de Miguel enquanto o carro o arrastava numa queda vertiginosa para a morte.
O choque, o horror e a depressão que se seguiram a este trágico acontecimento, marca-la-iam para sempre. Para Ana a vida terminara, ficara sem planos, sem objectivos para o futuro... o homem que amava como ninguém e com o qual traçara todos os planos possíveis e imaginários, fora brutalmente arrancado da sua vida, ainda por cima de uma forma tão estúpida, tão violenta...
Nunca deixara de se culpar pelo acidente, sentia que devia ter escolhido outro sítio, devia ter-se certificado que o carro estava bem travado, devia ter sido ela e não Miguel...
Os meses deram lugar a um ano e depois outro e outro... os pai de Ana enviavam-na de instituição em instituição em busca de uma cura para a sua filha. Passava as noites em claro a chorar, a soluçar. Houve até uma fase em que foi necessário colocar-lhe um colete de forças e interna-la porque destruía tudo a que deitava a mão e era agressiva com quem a tentava ajudar, tal era a sua revolta em relação ao seu destino.
Esta sua fase de revolta tornou-a uma pessoa só, uma vez que, quase todos os seus amigos a abandonaram, não conseguiam entender nem partilhar a sua dor. Ana criara um fosso, caíra num abismo de onde não havia volta.
Com a excepção de seus pais, todos a receavam. Tinham medo das suas reacções, assustava-os o seu aspecto sombrio, o seu olhar vazio desprovido de qualquer emoção... parecia uma personagem de um filme de vampiros. Emagreceu muito, empalideceu, vestia-se de preto da cabeça aos pés... tornara-se tão negra por fora como por dentro, na alma... até o seu cabelo castanho e encaracolado cheio de vida de que Miguel tanto gostava, tornara-se preto e liso como a plumagem de um corvo...
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terça-feira, 13 de janeiro de 2009
Capítulo 1 - Sexta parte
Os dias deram lugar a semanas, as semanas a meses e na relação que era bela ao início começou, a pouco e pouco a ser notório que as coisas já não estavam assim tão bem...
Sem se aperceber, João voltara aos seus problemas, à sua inadaptação. Parecia que onde estava nunca era onde queria estar, o que fazia nunca era o que queria fazer. Teresa tentava como podia aliviar-lhe aquela tensão mas, os seus esforços eram em vão... João escorregava cada vez mais pela falta de amor próprio. Acontecesse o que acontecesse, nunca estava satisfeito com o que conseguia, depois de alcançar o seu objectivo, ficava sempre com um amargo de boca, com a sensação de que não era aquilo que queria, uma sensação de tristeza, frustração e ao mesmo tempo vazio...
Tinha sempre a sensação de que faltava algo... que havia algo mais reservado para si do que a vida que levava e não saber o que era frustrava-o.
Teresa tentava a todo o custo conforta-lo e alivia-lo mas, os seus esforços eram em vão. Tentava entende-lo, compreende-lo mas, era inútil. Não conseguia.
Na verdade, era um esforço inglório, estava a tentar compreender algo que nem o próprio João conseguia compreender... nem um, nem outro sabiam o que se passava.
Teresa chegou a sugerir irem juntos a psicólogos, a sessões de aconselhamento, o que quer que fosse para as coisas melhorarem.
Uma vez e outra, as suas propostas foram sendo recusadas... João apenas dizia (e tinha certeza do que dizia):
-Não é preciso, é perda de tempo. Não sei o que tenho, é verdade. Mas sei que não é com consultas que se pode resolver.
-Mas temos que fazer alguma coisa, João! Eu não aguento mais ver-te assim! É como se já não te conhecesse... já não és o mesmo por quem me apaixonei... - disse Teresa soluçando.
Foi então que com grande tristeza sua, João se apercebeu da dor que estava a causar. Andava tão absorto nos seus problemas e pensamentos que nem se apercebera o quanto estava a ser egoísta.
Sem dizer nada, avançou de lágrimas nos olhos em direcção a Teresa. Abraçou-a profundamente e, nesse longo abraço, encontraram o consolo que andavam à procura... choraram, acariciaram-se, beijaram-se... sempre em silêncio.
No dia seguinte, João anunciou a sua decisão:
-Amor, tenho uns dias de férias para gozar... e decidi goza-los agora. Vou para o Alentejo, para o campo. - disse cabisbaixo.
-Eu já esperava isto... sempre pensei que me incluísses. - constatou Teresa.
-É mesmo por pensar em ti que vou para lá. Vou à procura de mim mesmo, passar uns dias sozinho, tentar entender o que se passa comigo...
-Ok, já percebi. Se achas que isso te pode ajudar, força! Espero que melhores mesmo. Quando voltares conversamos e vemos o que fazer daqui para a frente... - disse Teresa com uma lágrima teimosa ao canto do olho e o queixo a tremer.
-Daqui a uns dias estarei de volta. Vais ver que passa num instante.
João foi para o quarto, pegou na mochila e, de saída deu um longo abraço e beijou demoradamente Teresa.
Já no comboio, não conseguia bloquear algo que sentia... era como se soubesse que, de alguma forma, as coisas nunca mais voltariam a ser aquilo que tinham sido. Quer entre si e Teresa, quer em tudo o que estava relacionado consigo próprio...
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terça-feira, 2 de setembro de 2008
Capítulo 1 - Quinta parte
Ao toque do despertador acordaram os dois estremunhados, assustados, despenteados... o susto foi de tal ordem e estavam tão emaranhados um no outro que acabaram por cair da cama...
-Ai! Vou-te processar! Estou todo partido! - gracejou João.
-E eu a ti! Invadiste a minha propriedade e atiraste-me ao chão! - acompanhou Teresa.
-As camas individuais não foram mesmo feitas para casais! Ah, ah, ah!
-Como podes ver, não tinha a mínima ideia de receber um homem cá em casa... anda, temos que despachar ou ainda chegamos atrasados!
Tomaram duche e vestiram-se a correr enquanto se beijavam, acariciavam e brincavam atirando peças de roupa um ao outro.
Já no caminho para o trabalho, João disse:
-Esta noite, quero que vás jantar comigo. Quero falar contigo, quero conhecer-te melhor.
-Tens a certeza que não queres deixar as coisas assim, João? Assim é mais fácil, não há sentimentos, nem compromissos...
-Quem te disse que gosto das coisas simples? - disse este sorrindo.
-Eu sou mais velha que tu. Devias pensar em andar com alguém mais da tua idade, querido.
-Não te preocupes, ok? Falamos logo à noite.
O dia de trabalho passou rápido, foi um dia igual a tantos outros com a excepção de ser menos custoso, mais feliz.
Quando soaram as 19 horas, deram as mãos e saíram com destino ao restaurante.
-Onde me levas? - perguntou Teresa cheia de curiosidade.
-Já vais ver...
Chegaram a um restaurante acolhedor, com música ambiente. Sentaram-se num canto, numa mesa para dois e depois de fazerem os pedidos e, à luz da vela, João tomou a palavra:
-Teresa, eu não contava com isto mas, a verdade, é que mexeste muito comigo. Gosto de ti a sério!
-Oh, João! Não digas isso, por favor! Não tornes as coisas mais difíceis, por favor...
-É a sério. Não estou a dizer isto apenas por dizer.
-Gostas mesmo?
-Muito mais do que pensava. Já sentia algo por ti há algum tempo mas, nunca pensei que fosse tão forte. E depois da noite de ontem...
-Ai... Tenho uma confissão a fazer-te, querido.
-Diz...
-Eu também gosto muito de ti, há algum tempo.
-Então quer dizer que podemos avançar para algo sério...
-Tem calma, João. Não ponhas a carroça à frente dos bois. Eu não mergulho nas coisas de cabeça... vais ter que conquistar a minha confiança aos poucos.
-Eu sei, Teresa. Deixei-me apenas levar pela emoção. Ah, ah, ah...
-Tonto!
-Há uma coisa que te quero perguntar...
-Estás à vontade!
-Aquelas fotos que tens lá em casa... são teus filhos?
O sorriso de Teresa desapareceu por completo ao ouvir esta pergunta, era como se todo o sangue lhe tivesse gelado nas veias.
-Que aconteceu? Estás bem? - perguntou João preocupado.
-Sim... estou. É que é um assunto que me magoa bastante, sabes?
-Posso saber porquê?
-É que são mesmo meus filhos e não sei nada deles há anos... desde que o pai os levou para o Brasil, acho eu. Pelo menos, foi até onde a polícia conseguiu seguir o rasto... - respondeu Teresa com as lágrimas a escorrerem-lhe pela face.
-Desculpa... não devia ter tocado nesse assunto. Sou mesmo estúpido!
-Não és nada, querido. Não tinhas como saber, não é? Não te preocupes, não é por não falar nas coisas dolorosas que elas deixam de doer, antes pelo contrário.
-Sabes, ainda gosto mais de ti agora. Por essa tua força interior.
-Oh pá! Estás-me a deixar sem jeito.
O resto do jantar decorreu sem mais incidentes. Foram conversando e aprendendo mais um sobre o outro. Dando-se a conhecer mutuamente por entre risos e carícias com a ajuda dos vapores de um bom vinho tinto.
(Continua)
-Ai! Vou-te processar! Estou todo partido! - gracejou João.
-E eu a ti! Invadiste a minha propriedade e atiraste-me ao chão! - acompanhou Teresa.
-As camas individuais não foram mesmo feitas para casais! Ah, ah, ah!
-Como podes ver, não tinha a mínima ideia de receber um homem cá em casa... anda, temos que despachar ou ainda chegamos atrasados!
Tomaram duche e vestiram-se a correr enquanto se beijavam, acariciavam e brincavam atirando peças de roupa um ao outro.
Já no caminho para o trabalho, João disse:
-Esta noite, quero que vás jantar comigo. Quero falar contigo, quero conhecer-te melhor.
-Tens a certeza que não queres deixar as coisas assim, João? Assim é mais fácil, não há sentimentos, nem compromissos...
-Quem te disse que gosto das coisas simples? - disse este sorrindo.
-Eu sou mais velha que tu. Devias pensar em andar com alguém mais da tua idade, querido.
-Não te preocupes, ok? Falamos logo à noite.
O dia de trabalho passou rápido, foi um dia igual a tantos outros com a excepção de ser menos custoso, mais feliz.
Quando soaram as 19 horas, deram as mãos e saíram com destino ao restaurante.
-Onde me levas? - perguntou Teresa cheia de curiosidade.
-Já vais ver...
Chegaram a um restaurante acolhedor, com música ambiente. Sentaram-se num canto, numa mesa para dois e depois de fazerem os pedidos e, à luz da vela, João tomou a palavra:
-Teresa, eu não contava com isto mas, a verdade, é que mexeste muito comigo. Gosto de ti a sério!
-Oh, João! Não digas isso, por favor! Não tornes as coisas mais difíceis, por favor...
-É a sério. Não estou a dizer isto apenas por dizer.
-Gostas mesmo?
-Muito mais do que pensava. Já sentia algo por ti há algum tempo mas, nunca pensei que fosse tão forte. E depois da noite de ontem...
-Ai... Tenho uma confissão a fazer-te, querido.
-Diz...
-Eu também gosto muito de ti, há algum tempo.
-Então quer dizer que podemos avançar para algo sério...
-Tem calma, João. Não ponhas a carroça à frente dos bois. Eu não mergulho nas coisas de cabeça... vais ter que conquistar a minha confiança aos poucos.
-Eu sei, Teresa. Deixei-me apenas levar pela emoção. Ah, ah, ah...
-Tonto!
-Há uma coisa que te quero perguntar...
-Estás à vontade!
-Aquelas fotos que tens lá em casa... são teus filhos?
O sorriso de Teresa desapareceu por completo ao ouvir esta pergunta, era como se todo o sangue lhe tivesse gelado nas veias.
-Que aconteceu? Estás bem? - perguntou João preocupado.
-Sim... estou. É que é um assunto que me magoa bastante, sabes?
-Posso saber porquê?
-É que são mesmo meus filhos e não sei nada deles há anos... desde que o pai os levou para o Brasil, acho eu. Pelo menos, foi até onde a polícia conseguiu seguir o rasto... - respondeu Teresa com as lágrimas a escorrerem-lhe pela face.
-Desculpa... não devia ter tocado nesse assunto. Sou mesmo estúpido!
-Não és nada, querido. Não tinhas como saber, não é? Não te preocupes, não é por não falar nas coisas dolorosas que elas deixam de doer, antes pelo contrário.
-Sabes, ainda gosto mais de ti agora. Por essa tua força interior.
-Oh pá! Estás-me a deixar sem jeito.
O resto do jantar decorreu sem mais incidentes. Foram conversando e aprendendo mais um sobre o outro. Dando-se a conhecer mutuamente por entre risos e carícias com a ajuda dos vapores de um bom vinho tinto.
(Continua)
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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008
Capítulo 1 - Quarta parte
Ao contrário do que João poderia pensar, a colega não fez quaisquer comentários à sua mudança de visual. Simplesmente, dirigiu-lhe um sorriso carinhoso quando o viu entrar pela porta e nada mais. Na verdade, João quase que podia jurar que algo não estava bem com Teresa, era sempre tão divertida, tão faladora... e hoje, durante toda a manhã, apenas lhe ouvira "Bom dia" e "Obrigado" dirigidos aos clientes...
Tomou então a decisão de que devia fazer algo para a ajudar:
- Teresa, queres vir almoçar comigo? Convido eu... - perguntou um pouco a medo.
- Ahhh... não sei... não me apetece comer... - respondeu um pouco cabisbaixa.
- Vens almoçar comigo, sim! Precisas de te alimentar... e para mais, fui eu que te convidei e não se deve recusar convites! - respondeu tentando anima-la.
- Pronto, está bem, tonto! Vou almoçar contigo... - consentiu, finalmente, com um sorriso envergonhado.
Exactamente às 13 horas, fecharam a loja e foram almoçar juntos a um daqueles restaurantes típicos de Lisboa, no entanto, apesar das tentativas de João para animar Teresa, esta manteve-se calada durante quase todo o trajecto apenas mostrando um ou outro sorriso de conveniência...
Já no restaurante, João achou que devido às suas tentativas de animação se terem revelado infrutíferas, estava na altura de ser sincero e falar abertamente com a sua colega:
- Não sei se queres falar mas, tomei a liberdade de te convidar para almoçar porque vejo que hoje não estás bem... - começou um pouco receoso.
De olhos bem abertos de espanto, Teresa fixou os olhos nos dele. Só então, este se apercebeu do quanto eram bonitos... eram grandes, cor de mel por fora e castanhos junto da íris que agora se dilatava como que tentando ler no fundo da sua alma... sentia-se como que hipnotizado sem conseguir pronunciar uma palavra que fosse, um arrepio percorria-lhe a coluna provocando-lhe pele de galinha... então, como que vinda do nada, uma pergunta veio arrancá-lo desse torpor:
- Porque te preocupas comigo? Como viste que não estava bem?
- Ahh... é que trabalhamos já há algum tempo juntos... e... estás sempre bem disposta... e nem te meteste comigo hoje... - respondeu quase a gaguejar.
- Por acaso, até reparei que te arranjaste todo hoje... mas não estou nada bem mesmo... - disse desviando o olhar triste para os pés da mesa ao lado.
- Foi tudo para ti! Arranjei-me assim para ti... - tentou animá-la novamente.
- Oh pá! Tonto! Como se alguém como tu se fosse interessar por alguém como eu!- desconfiou entre sorrisos.
- Porque dizes isso? És uma mulher linda!
E de facto era, apesar de ter alguns anos a mais que João, Teresa era uma mulher extremamente bonita e que sabia cativar. Tinha um olhar sensual e uma maneira de ser e de estar que não deixava indiferente homem algum.
- Achas mesmo que sim? Deixa mas é de me dar graxa... tenho uns 15 anos a mais que tu, no mínimo! - exclamou com uma pontinha de resignação.
- E depois? O que tem isso? Fica desde já sabendo que era perfeitamente possível eu interessar-me por ti, sendo tu uma pessoa tão bonita como sinto que és...- disse, sentindo imediatamente arrependido e envergonhado com o que dissera, saíra-lhe sem pensar.
Percebendo a evidente atrapalhação do seu companheiro, Teresa desatou a rir a bandeiras despregadas...
- Só tu! Ahahahahah! Só tu é que me podias fazer rir assim num dia como este! Não precisas ficar vermelho! Ahahahah...
Corando até à raiz dos cabelos mas, feliz por ter feito rir a sua colega, João disse alinhando na brincadeira:
- Se é para gozar comigo não pago o almoço...
- Pagas, pagas porque esta noite vais jantar a minha casa.
- O quê?- perguntou incrédulo.
- Sim, mereceste-o... deste-me atenção e fizeste-me sentir bem num dia em que estava muito em baixo. Obrigado, és um querido. - disse passando-lhe a mão pela face.
João assentiu deixando escapar um sorriso acompanhado de um brilhozinho nos olhos...
A tarde passou igual a tantas outras, sem sobressaltos, apenas com a certeza de saírem juntos ao fim do dia.
Quando esse momento chegou, parecia que tinham molas. Fecharam a loja e dirigiram-se para casa de Teresa com uma garrafa de vinho debaixo do braço. Percorreram ruas e ruelas do bairro alto até chegarem a um prédio igual a tantos outros numa rua igual a tantas outras com a diferença de que ali, meteu a chave na porta e rodou a fechadura. Subiram as escadas até ao fim e entraram nas águas furtadas em que vivia.
Era um espaço pequeno, mas acolhedor ela soubera fazer autenticas maravilhas com o espaço exíguo de que dispunha.
- Põe o vinho na cozinha e põe-te à vontade no sofá que eu trato de tudo...
- Nem penses, eu vou-te ajudar.
- És tão querido, nem parece coisa de homem!- e passou-lhe novamente a mão pela face.
Nesse momento, olharam-se nos olhos durante um espaço de tempo que pareceu uma eternidade e, sem se aperceberem, as suas bocas foram-se aproximando lentamente até se colarem fazendo com que se beijassem longamente como se fossem namorados que estiveram muito tempo separados. Era como se se amassem este tempo todo e só agora se tivessem apercebido disso. Sentiam algo incontrolável, uma paixão, um fogo... não conseguiam parar os beijos, as carícias, as roupas saltavam dos corpos ondulando e gemendo sentindo-se mutuamente até caírem no sofá fundindo-se num só. Amaram-se várias vezes, olhando-se nos olhos, beijando-se, acariciando-se. Por fim, o cansaço venceu e entregou-os nos braços um do outro, num sono feliz e profundo, até ser manhã.
(Continua)
Tomou então a decisão de que devia fazer algo para a ajudar:
- Teresa, queres vir almoçar comigo? Convido eu... - perguntou um pouco a medo.
- Ahhh... não sei... não me apetece comer... - respondeu um pouco cabisbaixa.
- Vens almoçar comigo, sim! Precisas de te alimentar... e para mais, fui eu que te convidei e não se deve recusar convites! - respondeu tentando anima-la.
- Pronto, está bem, tonto! Vou almoçar contigo... - consentiu, finalmente, com um sorriso envergonhado.
Exactamente às 13 horas, fecharam a loja e foram almoçar juntos a um daqueles restaurantes típicos de Lisboa, no entanto, apesar das tentativas de João para animar Teresa, esta manteve-se calada durante quase todo o trajecto apenas mostrando um ou outro sorriso de conveniência...
Já no restaurante, João achou que devido às suas tentativas de animação se terem revelado infrutíferas, estava na altura de ser sincero e falar abertamente com a sua colega:
- Não sei se queres falar mas, tomei a liberdade de te convidar para almoçar porque vejo que hoje não estás bem... - começou um pouco receoso.
De olhos bem abertos de espanto, Teresa fixou os olhos nos dele. Só então, este se apercebeu do quanto eram bonitos... eram grandes, cor de mel por fora e castanhos junto da íris que agora se dilatava como que tentando ler no fundo da sua alma... sentia-se como que hipnotizado sem conseguir pronunciar uma palavra que fosse, um arrepio percorria-lhe a coluna provocando-lhe pele de galinha... então, como que vinda do nada, uma pergunta veio arrancá-lo desse torpor:
- Porque te preocupas comigo? Como viste que não estava bem?
- Ahh... é que trabalhamos já há algum tempo juntos... e... estás sempre bem disposta... e nem te meteste comigo hoje... - respondeu quase a gaguejar.
- Por acaso, até reparei que te arranjaste todo hoje... mas não estou nada bem mesmo... - disse desviando o olhar triste para os pés da mesa ao lado.
- Foi tudo para ti! Arranjei-me assim para ti... - tentou animá-la novamente.
- Oh pá! Tonto! Como se alguém como tu se fosse interessar por alguém como eu!- desconfiou entre sorrisos.
- Porque dizes isso? És uma mulher linda!
E de facto era, apesar de ter alguns anos a mais que João, Teresa era uma mulher extremamente bonita e que sabia cativar. Tinha um olhar sensual e uma maneira de ser e de estar que não deixava indiferente homem algum.
- Achas mesmo que sim? Deixa mas é de me dar graxa... tenho uns 15 anos a mais que tu, no mínimo! - exclamou com uma pontinha de resignação.
- E depois? O que tem isso? Fica desde já sabendo que era perfeitamente possível eu interessar-me por ti, sendo tu uma pessoa tão bonita como sinto que és...- disse, sentindo imediatamente arrependido e envergonhado com o que dissera, saíra-lhe sem pensar.
Percebendo a evidente atrapalhação do seu companheiro, Teresa desatou a rir a bandeiras despregadas...
- Só tu! Ahahahahah! Só tu é que me podias fazer rir assim num dia como este! Não precisas ficar vermelho! Ahahahah...
Corando até à raiz dos cabelos mas, feliz por ter feito rir a sua colega, João disse alinhando na brincadeira:
- Se é para gozar comigo não pago o almoço...
- Pagas, pagas porque esta noite vais jantar a minha casa.
- O quê?- perguntou incrédulo.
- Sim, mereceste-o... deste-me atenção e fizeste-me sentir bem num dia em que estava muito em baixo. Obrigado, és um querido. - disse passando-lhe a mão pela face.
João assentiu deixando escapar um sorriso acompanhado de um brilhozinho nos olhos...
A tarde passou igual a tantas outras, sem sobressaltos, apenas com a certeza de saírem juntos ao fim do dia.
Quando esse momento chegou, parecia que tinham molas. Fecharam a loja e dirigiram-se para casa de Teresa com uma garrafa de vinho debaixo do braço. Percorreram ruas e ruelas do bairro alto até chegarem a um prédio igual a tantos outros numa rua igual a tantas outras com a diferença de que ali, meteu a chave na porta e rodou a fechadura. Subiram as escadas até ao fim e entraram nas águas furtadas em que vivia.
Era um espaço pequeno, mas acolhedor ela soubera fazer autenticas maravilhas com o espaço exíguo de que dispunha.
- Põe o vinho na cozinha e põe-te à vontade no sofá que eu trato de tudo...
- Nem penses, eu vou-te ajudar.
- És tão querido, nem parece coisa de homem!- e passou-lhe novamente a mão pela face.
Nesse momento, olharam-se nos olhos durante um espaço de tempo que pareceu uma eternidade e, sem se aperceberem, as suas bocas foram-se aproximando lentamente até se colarem fazendo com que se beijassem longamente como se fossem namorados que estiveram muito tempo separados. Era como se se amassem este tempo todo e só agora se tivessem apercebido disso. Sentiam algo incontrolável, uma paixão, um fogo... não conseguiam parar os beijos, as carícias, as roupas saltavam dos corpos ondulando e gemendo sentindo-se mutuamente até caírem no sofá fundindo-se num só. Amaram-se várias vezes, olhando-se nos olhos, beijando-se, acariciando-se. Por fim, o cansaço venceu e entregou-os nos braços um do outro, num sono feliz e profundo, até ser manhã.
(Continua)
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quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
Capítulo 1 - Terceira parte
Vários meses passaram e João que ao princípio se deslocava diariamente àquele local a fim de reencontrar aquela mulher misteriosa, começou a perder a esperança e, até mesmo, a duvidar se aquele encontro teria realmente tido lugar e se ela existiria mesmo. Seria possível que tudo não passasse de um sonho?
Actualmente, apenas lá se deslocava quando estava na zona. Sentava-se no monte de pedras que ele próprio construira e ficava ali horas a fio sózinho, a pensar na vida e a observar, na linha do horizonte, toda aquela beleza que lhe fora mostrada meses atrás.
Apesar de todas as dúvidas e de a sua vida continuar como até ali, persistia com a certeza de que havia algo mais naquele encontro do que apenas uma coincidência, havia algo no fundo de si que lhe dizia que voltariam a encontrar-se, independentemente de passar uma semana, um mês, um ano... sentia que o destino se encarregaria desse reencontro.
Foi então, com este pensamento em mente que decidiu que não havia porque apressar o destino, a seu tempo ele surgiria. Foi para casa, fez as malas e meteu-se no primeiro autocarro para Lisboa.
Encontrou emprego numa daquelas lojas de bairro muito pitorescas em que há de tudo, desde chocolates a candeeiros, passando por roupa e detergentes. À medida que os dias, as semanas, os meses iam passando, as saudades do seu Alentejo natal iam-se acentuando e ficando mais dolorosas. Nesses momentos, lembrava-se de algo que o seu avô lhe dizia: " Tens que fazer pela vida ou a vida faz-te rapaz!". Sentia, principalmente, saudades do ar puro, do campo, das planícies, do contacto com a Natureza.
Tudo isto, fazia-o sentir-se frustrado, passava os dias a olhar o vazio, perdido em pensamentos. De tal modo que ignova completamente os avanços e insinuações que a sua colega de trabalho lhe fazia constantemente. Mas, um dia decidiu que já que ali estava, tinha que se conformar e deixar de sonhos idiotas uma vez que, já perdera a esperança de reencontrar aquela que tanto procurava. Assim fez, ao toque do despertador, levantou-se da cama velha e rabugenta do pequeno quarto que alugara, tomou um banho retemperador, arranjou-se o melhor que podia e foi para o trabalho.
Pelo caminho, não pôde deixar de pensar para consigo mesmo: " Imagino o que a minha colega Teresa vai dizer hoje!" e sorriu pela primeira vez em meses...
(Continua)
Actualmente, apenas lá se deslocava quando estava na zona. Sentava-se no monte de pedras que ele próprio construira e ficava ali horas a fio sózinho, a pensar na vida e a observar, na linha do horizonte, toda aquela beleza que lhe fora mostrada meses atrás.
Apesar de todas as dúvidas e de a sua vida continuar como até ali, persistia com a certeza de que havia algo mais naquele encontro do que apenas uma coincidência, havia algo no fundo de si que lhe dizia que voltariam a encontrar-se, independentemente de passar uma semana, um mês, um ano... sentia que o destino se encarregaria desse reencontro.
Foi então, com este pensamento em mente que decidiu que não havia porque apressar o destino, a seu tempo ele surgiria. Foi para casa, fez as malas e meteu-se no primeiro autocarro para Lisboa.
Encontrou emprego numa daquelas lojas de bairro muito pitorescas em que há de tudo, desde chocolates a candeeiros, passando por roupa e detergentes. À medida que os dias, as semanas, os meses iam passando, as saudades do seu Alentejo natal iam-se acentuando e ficando mais dolorosas. Nesses momentos, lembrava-se de algo que o seu avô lhe dizia: " Tens que fazer pela vida ou a vida faz-te rapaz!". Sentia, principalmente, saudades do ar puro, do campo, das planícies, do contacto com a Natureza.
Tudo isto, fazia-o sentir-se frustrado, passava os dias a olhar o vazio, perdido em pensamentos. De tal modo que ignova completamente os avanços e insinuações que a sua colega de trabalho lhe fazia constantemente. Mas, um dia decidiu que já que ali estava, tinha que se conformar e deixar de sonhos idiotas uma vez que, já perdera a esperança de reencontrar aquela que tanto procurava. Assim fez, ao toque do despertador, levantou-se da cama velha e rabugenta do pequeno quarto que alugara, tomou um banho retemperador, arranjou-se o melhor que podia e foi para o trabalho.
Pelo caminho, não pôde deixar de pensar para consigo mesmo: " Imagino o que a minha colega Teresa vai dizer hoje!" e sorriu pela primeira vez em meses...
(Continua)
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sábado, 26 de janeiro de 2008
Capítulo 1 - Segunda parte
Era linda, trazia um longo vestido branco que, com o vento que se fazia sentir, realçava os contornos do seu corpo. O seu longo cabelo ondulado cor de fogo, esvoaçava ao sabor do vento. Toda ela era pureza e paz, tão bela e tão serena como se fosse saída de um sonho, como se fosse uma miragem. Mas, ao mesmo tempo, parecia real. João estava boquiaberto, não conseguia articular o mínimo gesto, teve mesmo que se beliscar para ter a certeza que não estava a sonhar.
Continuou a avançar até se deter a escassos metros de João, deitando-lhe o sorriso mais belo e radioso que jamais vira.
Ainda de "queixo caído", ruborizou e devolveu-lhe um sorriso atabalhoadamente idiota. No entanto, não conseguia parar de observá-la. Tinha uns olhos verdes, intensos e penetrantes, como se invadissem o mais recôndito canto da alma daquele em quem incidiam.
Misteriosamente, permaneceu ali, em silêncio, contemplando o mar como se estivesse sozinha, como que ignorando a presença de João... cujo, já nem se lembrava do que o levara ali de tão absorto que estava. Mas o que mais o inquietava, para além do mistério que parecia envolver tudo o que esta mulher fazia, era o facto de lhe deixar a sensação de se conhecerem desde sempre mas era impossível, ele nunca a vira antes... ou assim pensava.
E assim permaneceram, sem uma palavra, ambos olhando o mar absorvidos no outro mar, no dos seus pensamentos... até que:
-O que pensas fazer, não é solução para os teus problemas... há tanta coisa linda no mundo, tanta coisa por descobrir... - disse deixando João mais uma vez boquiaberto.
Como era possível que aquela mulher soubesse o que o levara ali?
-Olha agora, ali ao fundo, a magia do mundo! A linha do horizonte, onde o mar e o céu se encontram, é como se o mar não tivesse fim e o céu fosse o seu prolongamento... tal como o mar não cessa, também tu não podes desistir da tua vida por tão pouco, há muito mais para ver, descobrir, experimentar do que à primeira vista... - continuou.
-Mas... porque me estás a dizer tudo isto? Nem sequer me conheces! Não sei o teu nome... como sabes... não é possível! - disse João completamente surpreendido e espantado.
-Shhh... não digas nada. Há muitas coisas que ainda desconheces e, para já, é tudo o que precisas saber... adeus! - disse enquanto se virava e começava a caminhar pelo mesmo caminho que a trouxera.
-Espera um pouco! Como te chamas? Quando te vejo outra vez?
-Se estivesse no teu lugar, não me preocuparia com isso... - respondeu continuando a sua caminhada afastando-se cada vez mais, com os seus longos cabelos a esvoaçar ao sabor do vento, como se flutuasse sem tocar no chão.
Ficou a observá-la até desaparecer no meio da vegetação. Novamente sozinho, desta vez sem pensar em atirar-se ao mar, João não conseguia parar de pensar:
-Como é que uma mulher, apesar de tão bela, conseguiu em tão pouco tempo, deixar-me tão pensativo, tão ansioso por voltar a vê-la? Quem será?
Mas uma coisa sabia: tinha que voltar a vê-la, nem que para isso lá voltasse todos os dias, tinha que a ver!
(Continua)
Continuou a avançar até se deter a escassos metros de João, deitando-lhe o sorriso mais belo e radioso que jamais vira.
Ainda de "queixo caído", ruborizou e devolveu-lhe um sorriso atabalhoadamente idiota. No entanto, não conseguia parar de observá-la. Tinha uns olhos verdes, intensos e penetrantes, como se invadissem o mais recôndito canto da alma daquele em quem incidiam.
Misteriosamente, permaneceu ali, em silêncio, contemplando o mar como se estivesse sozinha, como que ignorando a presença de João... cujo, já nem se lembrava do que o levara ali de tão absorto que estava. Mas o que mais o inquietava, para além do mistério que parecia envolver tudo o que esta mulher fazia, era o facto de lhe deixar a sensação de se conhecerem desde sempre mas era impossível, ele nunca a vira antes... ou assim pensava.
E assim permaneceram, sem uma palavra, ambos olhando o mar absorvidos no outro mar, no dos seus pensamentos... até que:
-O que pensas fazer, não é solução para os teus problemas... há tanta coisa linda no mundo, tanta coisa por descobrir... - disse deixando João mais uma vez boquiaberto.
Como era possível que aquela mulher soubesse o que o levara ali?
-Olha agora, ali ao fundo, a magia do mundo! A linha do horizonte, onde o mar e o céu se encontram, é como se o mar não tivesse fim e o céu fosse o seu prolongamento... tal como o mar não cessa, também tu não podes desistir da tua vida por tão pouco, há muito mais para ver, descobrir, experimentar do que à primeira vista... - continuou.
-Mas... porque me estás a dizer tudo isto? Nem sequer me conheces! Não sei o teu nome... como sabes... não é possível! - disse João completamente surpreendido e espantado.
-Shhh... não digas nada. Há muitas coisas que ainda desconheces e, para já, é tudo o que precisas saber... adeus! - disse enquanto se virava e começava a caminhar pelo mesmo caminho que a trouxera.
-Espera um pouco! Como te chamas? Quando te vejo outra vez?
-Se estivesse no teu lugar, não me preocuparia com isso... - respondeu continuando a sua caminhada afastando-se cada vez mais, com os seus longos cabelos a esvoaçar ao sabor do vento, como se flutuasse sem tocar no chão.
Ficou a observá-la até desaparecer no meio da vegetação. Novamente sozinho, desta vez sem pensar em atirar-se ao mar, João não conseguia parar de pensar:
-Como é que uma mulher, apesar de tão bela, conseguiu em tão pouco tempo, deixar-me tão pensativo, tão ansioso por voltar a vê-la? Quem será?
Mas uma coisa sabia: tinha que voltar a vê-la, nem que para isso lá voltasse todos os dias, tinha que a ver!
(Continua)
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Livro do fim
quinta-feira, 24 de janeiro de 2008
Capítulo 1 - Primeira parte
Sentia-se triste, cansado... apesar do dia lindo que o sol a despontar no horizonte fazia antever, não conseguia desfrutar de tão belo momento: "Porque ouvi aquelas palavras tão duras?"- era a única coisa no seu pensamento.
Apenas tentara ajudar, não queria que as coisas tivessem acontecido assim... sentia-se numa encruzilhada: "Será que as coisas vão mudar? Ou será que chegou a altura de por um ponto final e seguir em frente?". No entanto e acima de tudo, amava-a...
Por um momento, a ideia de morrer e escapar aos seus problemas, atravessou-lhe o espírito provocando-lhe um arrepio profundo. Ali naquela falésia, com o mar lá em baixo, a embater violentamente na rocha misturando o azul com o branco da espuma, sentia-se tentado pelo abismo, por mergulhar no azul infinito e nunca parar de cair.
Ao acender mais um cigarro pensativo, começou a fazer uma retrospectiva do que fora, até ali, a sua vida. Nunca fora uma pessoa feliz, sempre recatado enquanto adolescente, disfarçava a sua timidez fingindo não se interessar por nada. No entanto, esse disfarce viria a tornar-se um hábito quase inultrapassável, como se vivesse no seu mundo isolado de tudo e de todos... mas, no fundo, tudo o que queria era ser feliz e ter uma vida normal...
Mas não, também não era isso. Porque na verdade, detestava a normalidade e assim, acabava por viver num dilema em que não sabia o que realmente queria nem como o conseguir.
Tiveras algumas namoradas, umas marcantes e outras nem por isso, mas a que mais o marcara, fora a última com a qual tivera a discussão que o conduzira até aqui. Por tanto a amar, se sentia assim tão perdido depois das palavras duras que ela lhe dirigira, ficara sem ninguém que o fizesse sentir alguém...
Desde muito novo que se sentia diferente, como se tivesse sido talhado para algo especial mas logo, a modéstia e a timidez o faziam recuar nesses pensamentos até porque, nunca lhe acontecera nada de especial, apenas levava uma vida triste e banal em busca da felicidade que, segundo ele, estava cada vez mais difícil de encontrar...
Agora, sozinho, olhando o profundo azul do mar, pensava em que rumo dar à sua vida, em que atitude tomar ou, em acabar com tudo... então, quando se decidiu e se preparava para dar um passo em frente para as profundezas... viu-a!
(Continua)
Apenas tentara ajudar, não queria que as coisas tivessem acontecido assim... sentia-se numa encruzilhada: "Será que as coisas vão mudar? Ou será que chegou a altura de por um ponto final e seguir em frente?". No entanto e acima de tudo, amava-a...
Por um momento, a ideia de morrer e escapar aos seus problemas, atravessou-lhe o espírito provocando-lhe um arrepio profundo. Ali naquela falésia, com o mar lá em baixo, a embater violentamente na rocha misturando o azul com o branco da espuma, sentia-se tentado pelo abismo, por mergulhar no azul infinito e nunca parar de cair.
Ao acender mais um cigarro pensativo, começou a fazer uma retrospectiva do que fora, até ali, a sua vida. Nunca fora uma pessoa feliz, sempre recatado enquanto adolescente, disfarçava a sua timidez fingindo não se interessar por nada. No entanto, esse disfarce viria a tornar-se um hábito quase inultrapassável, como se vivesse no seu mundo isolado de tudo e de todos... mas, no fundo, tudo o que queria era ser feliz e ter uma vida normal...
Mas não, também não era isso. Porque na verdade, detestava a normalidade e assim, acabava por viver num dilema em que não sabia o que realmente queria nem como o conseguir.
Tiveras algumas namoradas, umas marcantes e outras nem por isso, mas a que mais o marcara, fora a última com a qual tivera a discussão que o conduzira até aqui. Por tanto a amar, se sentia assim tão perdido depois das palavras duras que ela lhe dirigira, ficara sem ninguém que o fizesse sentir alguém...
Desde muito novo que se sentia diferente, como se tivesse sido talhado para algo especial mas logo, a modéstia e a timidez o faziam recuar nesses pensamentos até porque, nunca lhe acontecera nada de especial, apenas levava uma vida triste e banal em busca da felicidade que, segundo ele, estava cada vez mais difícil de encontrar...
Agora, sozinho, olhando o profundo azul do mar, pensava em que rumo dar à sua vida, em que atitude tomar ou, em acabar com tudo... então, quando se decidiu e se preparava para dar um passo em frente para as profundezas... viu-a!
(Continua)
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